Exames pedidos apenas por precaução só aumentam incerteza

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Por: Diário da Saúde  Data: 14/12/2022 às 09:14
Imagem: AlagoasWeb/Arq

Por paradoxal que possa parecer, eis o que costuma acontecer nos serviços de saúde: Quando você pede ao médico para fazer uma ressonância magnética para se sentir mais seguro, na verdade sua incerteza irá aumentar.

Imagine que você entra em contato com seu médico de família porque está sentindo dores nas costas. Você quer que suas costas sejam examinadas com cuidado e então pergunta ao médico porque não fazer uma ressonância magnética. O médico sabe que, se a dor durar menos de quatro a seis semanas e você não estiver sentindo certos sintomas de alerta, pedir uma ressonância magnética será de pouca ajuda.

Mas você acha que tem que ser melhor saber do que não saber e força para fazer a ressonância magnética. O médico quer lhe acalmar e acaba concordando em lhe dar um encaminhamento.

Você marca o exame algumas semanas depois e, mais alguns dias mais tarde, pega o resultado. O exame de ressonância magnética mostra que você tem várias hérnias de disco nas costas. Mas isto não diz se eles têm algo a ver com sua dor atual ou se são prolapsos antigos.

No entanto, você ainda pensa que esse resultado pode ser uma possível causa da dor e sai à procura de artigos sobre prolapsos. A cirurgia pode ajudar? Você pergunta ao seu médico se deve ser encaminhado a um ortopedista para avaliação. O médico diz que não há um bom motivo para fazer isso, mas você não tem certeza de qual é a melhor opção – suas costas doem muito e você está ainda mais inseguro do que antes de fazer a ressonância magnética.

Percebeu o aumento da incerteza? Agora você quer saber se deve fazer uma cirurgia; será que uma operação seria bem-sucedida; vai acabar com sua dor nas costas; e quais seriam os riscos?

Este é apenas um exemplo de como podemos nos tornar mais incertos ao tentar reduzir a incerteza. No exemplo acima, isso aconteceu porque a ressonância magnética gerou um resultado de significado ambíguo, e isso acontece com muitos tipos de exames.

Em outras palavras, você descobre algo diferente do que realmente procura, que pode ou não ser importante para sua saúde. A ação escolhida aumenta sua incerteza em vez de reduzi-la. Nesse caso, provavelmente teria sido melhor ouvir o médico e tentar outras medidas para reduzir a dor antes de fazer uma ressonância magnética.

Nenhum exame é perfeito
Um teste – seja um exame de imagem, de sangue etc – que produz um resultado incorreto é outro exemplo de como aumentar sua incerteza quando você tenta reduzi-la. Os exames não são perfeitos; eles podem estar errados.

O resultado do teste pode indicar que você tem uma doença mesmo que não tenha, gerando o que é chamado de resultado falso positivo. Ou o exame pode indicar que você não tem a doença, mesmo que tenha, gerando um resultado falso negativo.

No caso de um resultado falso-positivo, você pode ser encaminhado para vários exames adicionais ou tratamentos novos, muitas vezes desnecessários, que também poderão se mostrar problemáticos e até prejudiciais – é muito comum que tratamentos inovadores façam bem apenas para um número reduzido de pacientes.

No caso do resultado falso-negativo, você tem uma falsa sensação de segurança e pode perder um tempo valioso e potencialmente receber um prognóstico pior mais à frente. Quando você tem sintomas de alerta, contudo, é comum que o médico lhe peça para repetir o exame em outro laboratório.

Quanto menos preciso for o exame, mais resultados falsos eles gerarão, sejam positivos ou negativos. E testes imprecisos fornecem respostas pouco claras, que não fundamentam uma boa decisão médica.

Uma terceira e última maneira pela qual um exame médico pode aumentar nossa incerteza é por meio do diagnóstico excessivo, ou sobrediagnóstico.

Isso acontece quando descobrimos condições que não causariam sintomas ou doenças se não fossem detectadas – ou seja, condições com as quais morremos, mas não das quais morremos.

Exames desnecessários e sobrediagnóstico
Toda essa incerteza aumenta se houver poucos motivos para fazer um exame, por exemplo, que é o que acontece quando você pede ao médico para fazer um exame “apenas para garantir”. Em outros casos, o mesmo teste poderia ser de grande ajuda e forneceria respostas muito mais claras.

No primeiro exemplo, da ressonância magnética, se a dor nas costas for causada por uma lesão recente, ou se você tiver sintomas como dificuldade para urinar, sinais de danos nos nervos e/ou febre alta, uma ressonância magnética poderá de fato reduzir a incerteza.

Recomendações

Aqui estão três maneiras pelas quais a incerteza pode aumentar quando tentamos reduzi-la por meio de várias triagens médicas ou exames de diagnóstico.

  • Descobertas acidentais aumentam a incerteza ao encontrar algo diferente do que estamos procurando e cujo significado não é claro.
  • Exames imprecisos podem nos dar respostas erradas, e quanto menos motivos tivermos para fazer o teste – ou seja, quanto menos direcionado for o teste – maiores serão os erros.
  • O sobrediagnóstico é uma incerteza sobre o que pode acontecer no futuro, o chamado prognóstico: Nós não sabemos se o que encontramos se transformará em uma doença. Quando encontramos precursores de doenças, não sabemos se seremos salvos ou superdiagnosticados e receberemos tratamentos em excesso, que por sua vez acabarão gerando novos problemas.

Podemos, portanto, fazer várias coisas para evitar o aumento da incerteza quando queremos reduzi-la. A ação mais importante é discutir com seu médico se você realmente precisa de determinado exame, quais são suas consequências e o que pode acontecer se você não fizer. Discuta quais sãos as opções, sem insistir em uma delas.

Você deve ter três coisas em mente:

  • Não faça exames “só para garantir”.
  • Faça exames quando tiver bons motivos de saúde para fazê-los, como quando tiver motivos para acreditar que pode ter uma doença – quando tiver sintomas claros, ou seja, quando a probabilidade pré-teste for alta.
  • Tenha cuidado ao fazer o teste para doenças que se desenvolvem lentamente e com as quais a maioria das pessoas morre “com ela”, e não “dela”.