Alagoana de São Miguel dos Campos que integra Médicos Sem Fronteiras compartilha experiências nos 50 anos da organização

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Por: Com O Globo  Data: 26/10/2021 às 08:52
Fonte de Imagem: Divulgação

Médicos Sem Fronteiras completa 50 anos de atuação no mundo e 30 no Brasil em 2021

Renata Santos jamais se esqueceu do que sentiu ao acordar e perceber que o lustre do quarto onde dormia balançava sem parar. Era o primeiro semestre de 2014, e a psicóloga estava no Afeganistão para atuar em um hospital de traumas, como parte do trabalho para a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Ela conta que foi uma época de eleições para presidente no país, e havia um clima tenso no ar, “no dia anterior, escutamos barulhos de bombas cada vez mais próximos”, recorda-se. Ao perceber o tremor, ela correu para uma espécie de bunker com sua mala de cinco quilos, que precisa estar sempre pronta para situações como esta. O alívio, porém, veio logo em seguida: a casa onde estava abrigada não havia sido bombardeada. O balanço fora causado, na verdade, por um… terremoto.

“Foi quando senti mais medo”, afirma Renata. Mas, ao mesmo tempo em que conta histórias como essa, ela é categórica ao recusar o título de heroína. “Não devemos ser colocadas num altar”, avisa a psicóloga, que tem 37 anos e é presidente do Conselho da MSF-Brasil. “Às vezes, pensam que vivemos em constante abnegação. Isso até faz parte, mas a satisfação e os ganhos de um trabalho como o nosso são muito valiosos. Não é só uma vida de sacrifícios.” Renata tampouco é exceção à regra.

Liliana Andrade em missão na região da Faixa de Gaza Foto: Divulgação / Alice Martins
Liliana Andrade em missão na região da Faixa de Gaza Foto: Divulgação / Alice Martins

No ano em que a organização completa cinco décadas de atuação no mundo e três no Brasil, mulheres como ela representam 64% dos 214 profissionais brasileiros que atuam ao redor do globo. Além disso, no escritório baseado no país, seis dos sete cargos de direção são ocupados por mulheres.

Ainda no que diz respeito ao Brasil, a organização chega aos 30 anos em meio a uma de suas maiores campanhas, ao atuar em 12 estados, em função da pandemia. Nada disso, porém, é visto como motivo de comemoração por Renata. “Nosso trabalho é dar suporte a pessoas em situação de muita vulnerabilidade. É bom que existam organizações como a nossa, mas seria melhor se não fossem necessárias”, justifica.

Renata Santos no Afeganistão Foto: Divulgação
Alagoana Renata Santos no Afeganistão / Foto: Divulgação

Natural de São Miguel dos Campos, em Alagoas, Renata já participou de 11 projetos em locais como Líbano, Iraque, Turquia e Moçambique, além de ter atuado na equipe de saúde mental deslocada para Brumadinho, após o rompimento da barragem. Uma agenda como essa, reconhece, faz com que alguns vínculos construídos ao longo da vida se diluam. “Dependendo do trabalho, não temos tempo nem de mandar mensagens para os amigos”, ilustra.

Justamente por isso, ela valoriza cada momento ao lado dos pais e dos irmãos, quando consegue passar algum período na cidade onde nasceu.

O mesmo acontece com a enfermeira Jamila Fabiana de Oliveira, que, além dos pais, tem uma filha, Mariah, de 15 anos. Ela mora em São Paulo, onde executou os primeiros trabalhos pela organização. Mas, desde o início deste ano, começou a atuar em locais distantes de casa, como a região Amazônica. Para amenizar a saudade da filha, estabeleceu uma agenda diária: conversa por texto pela manhã, para saber qual será a “ordem do dia” e, à noite, por chamada de vídeo. “Mesmo quando o acesso à internet é difícil, dou um jeito de nos falarmos todos os dias.”

Jamila também terminou um namoro pouco depois de entrar para a organização, o que diz não ter sido problema. “Talvez, se fosse mais nova… Mas já tenho 45 anos. Conquistei a minha independência”, orgulha-se. Mãe solo, ela considera mais desafiadora a conciliação do trabalho com a sua própria configuração familiar. “Hoje, consigo administrar isso internamente. Mas já senti culpa ao sair para trabalhar e deixar a minha filha em casa”, desabafa a enfermeira, que tem a ajuda dos pais nos cuidados com Mariah. “Com o passar do tempo, entendi que essa é a minha história com ela. Afinal, graças à minha profissão consigo dar uma boa escola a minha filha e podemos viajar. Ela é uma menina preta, engajada e sabe como foi o meu caminho para chegar onde estou.”

A enfermeira Jamila Fabiana de Oliveira Foto: Divulgação / Mariana Abdalla/MSF
A enfermeira Jamila Fabiana de Oliveira Foto: Divulgação / Mariana Abdalla/MSF

A família aparece invariavelmente no discurso dessas mulheres. A anestesista carioca Liliana Andrade, de 46 anos, entrou para a organização justamente após perder os pais e o irmão caçula, por motivos diferentes. “Eu me vi sem chão. Quando vou para os projetos, sinto-me mais próxima deles”, descreve. Funcionária de dois hospitais em Brasília, ela reserva as férias anuais para trabalhar em missões da Médicos Sem Fronteiras (para descansar, usa as folgas acumuladas com os plantões e viaja com o companheiro, um administrador de empresas, por alguns dias).

Ainda que não tenha dedicação integral, Liliana coleciona histórias que a fazem se emocionar a cada relato. Uma delas diz respeito a Yussef, um garotinho que conheceu em 2012, na Faixa de Gaza. Ele havia sofrido queimaduras nas mãos em função dos conflitos, e a anestesista fez parte da equipe médica que o atendeu. “No meu último dia, numa conversa olho no olho, ele me disse: ‘I love you, Lili’.”, conta. Dois anos depois, a médica pode reencontrá-lo, ao participar de uma nova missão na região. Ao revê-lo, caiu num choro compulsivo. “Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida.”

Mina Kanashiro, que atua na área de logística, em missão no Quênia Foto: Divulgação
Mina Kanashiro, que atua na área de logística, em missão no Quênia Foto: Divulgação

O mesmo entusiasmo é compartilhado por outra carioca integrante da organização. Mina Kanashiro, de 36 anos, é coordenadora de produtos do Centro de Distribuição Logística, em Bruxelas, na Bélgica, e vibra a cada medicamento entregue nas regiões atendidas. Afinal, isso pode representar o fim de uma verdadeira odisseia. “Lidamos com países com muitas restrições, e a gestão de medicamentos como as próprias vacinas contra a Covid-19 é muito delicada, já que são muito sensíveis”, conta. “No caminho, um voo pode ser cancelado, um caminhão bloqueado em virtude de um conflito ou o governo pode mudar as regras de um dia para o outro.”

A entrega representa, muitas vezes, o fim de um trabalho que durou meses. Por isso, a maior recompensa, diz Mina, é ouvir das equipes que estão nos locais: “Sem vocês, não faríamos nada”. Passada a tensão, ela admite sentir falta de um chopinho pós-expediente, prática tão brasileira. Mas Mina também guarda consigo o antídoto da saudade. “São escolhas. Nessas horas, você tem que olhar para o que está construindo e como isso está lhe acrescentando.”