Resíduos de pesticidas são encontrados em 68% das papinhas infantis

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Por: Diário da Saúde  Data: 13/01/2023 às 06:21
Imagem: Freepik

Uma análise feitas por cientistas do Brasil e da Espanha identificou a presença de 21 agrotóxicos (incluindo fungicidas, inseticidas e herbicidas) e quatro toxinas produzidas por fungos do gênero Aspergillus (aflatoxinas) em 50 amostras de alimentos industrializados para bebês, comercializados em supermercados no estado de São Paulo.

“Encontramos resíduos de pesticidas em 68% das amostras analisadas de alimentos infantis. No recorte por composição e sabor, 47% das papinhas com frutas apresentaram pelo menos um resíduo de agrotóxico, índice que foi de 85% para as comidas de bebês à base de carne e vegetais,” contou a pesquisadora Rafaela Prata, da Unicamp.

Em um resultado particularmente preocupante, o metabólito sulfóxido de aldicarbe foi encontrado em três sabores de papinhas: Caldo de feijão, arroz e carne; legumes e carne; e abóbora, feijão preto e peito de frango. O teste não mediu a quantidade de resíduos.

O aldicarbe é um pesticida proibido no Brasil desde 2012. Por sua alta toxicidade, era usado ilegalmente como raticida (o popular “chumbinho”). Segundo o toxicologista Daniel Junqueira Dorta, professor de química forense na USP de Ribeirão Preto, trata-se de pesticida que se degrada rapidamente no solo, em cerca de duas ou três semanas. A presença de resíduos no alimento sugere, portanto, o uso irregular nas lavouras. Da mesma forma, o composto se degrada rapidamente no organismo e é eliminado.

“O efeito pior do aldicarbe é agudo, por concentração mais alta,” explicou o toxicologista. “De todo modo, não deveria haver resíduo desse tipo de jeito nenhum”, diz o toxicologista. Para a professora Helenice de Souza Spinosa, da USP, que analisou a toxicidade do composto em cães e gatos, o resultado é relevante e precisa ser mais bem investigado e detalhado. Ela lembra ainda que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), além das próprias empresas, faz o monitoramento da presença de contaminantes nos alimentos por amostragem regularmente.

“Se você pensar que a criança vai se alimentar com pequena quantidade e nesse estudo nem está quantificado, ou seja, podem ser apenas traços, isso não vai causar intoxicação aguda. Mas o achado é importante: embora proibido, pode ser que estejam usando e não sabemos,” disse Spinosa.

Uma boa notícia é que não foram encontradas nas amostras selecionadas as temidas aflatoxinas, que são tóxicas ao organismo humano e de animais e podem surgir em cereais, grãos e outros cultivos. A aflatoxina B1, por exemplo, é comprovadamente carcinogênica.

Sem legislação no Brasil
As concentrações dos agrotóxicos identificados ficaram abaixo dos limites máximos de resíduos estabelecidos pela legislação europeia a partir de 2006, que foi usada como padrão no estudo. De modo geral, na União Europeia o limite é de 10 microgramas por quilograma de alimento para diferentes agrotóxicos. Limites ainda mais baixos foram determinados para agrotóxicos específicos, como fipronil (4 microgramas por quilo).

“Ainda que estejam dentro dos limites preconizados pela legislação europeia, o ideal é que essas substâncias não sejam encontradas em alimentos infantis,” afirma o pesquisador Roberto Romero-González, da Universidade de Almeria, na Espanha, que participou do estudo, sendo considerado uma referência internacional no estudo de contaminantes em alimentos.

“No Brasil, não existe sequer uma legislação própria para limitar a concentração de resíduos de agrotóxicos em alimentos infantis,” contou Rafaela. “Os bebês são um grupo populacional sensível e vulnerável porque ingerem mais alimentos por quilograma de peso corporal do que os adultos e seus sistemas de desintoxicação e vias metabólicas não estão totalmente desenvolvidos. É importante conhecer a composição dos alimentos oferecidos a eles.”

A FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que financiou o estudo, procurou a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) para discutir o assunto, mas a entidade se eximiu, sugerindo que o questionamento fosse dirigido à Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins e Congêneres (Abiad). A Abiad limitou-se a emitir uma nota protocolar, afirmando que as empresas a ela associadas seguem todas as normas e legislações nacionais vigentes – neste caso inexistentes – e que têm restritas políticas para garantir a qualidade dos produtos aos consumidores.

Metodologia nacional
A metodologia usada neste estudo foi desenvolvida no Laboratório de Análises de Alimentos da Unicamp.

Depois de fazer a análise divulgada agora, o grupo submeteu as mesmas amostras a uma outra técnica de triagem, capaz de rastrear a presença de 2.424 contaminantes não abordados a princípio, entre eles outros pesticidas, hormônios, medicamentos veterinários e seus metabólitos (substâncias derivadas da metabolização desses compostos químicos pelo organismo humano).

“Encontramos mais dez agrotóxicos e um metabólito, demonstrando que o método que desenvolvemos é sensível e eficaz,” disse Rafaela. “Nós conseguimos desenvolver um método analítico multirresíduos confiável e validá-lo totalmente. Pode ser uma ferramenta útil para programas de vigilância de alimentos.”