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Reforma tributária: o impacto no preço das roupas

A transição para IBS e CBS altera margem, repasse de créditos e formação de preço no vestuário. Setor de moda precisa ajustar sistemas, contratos e comunicação com o consumidor.


A reforma tributária brasileira entra em fase de implementação a partir de 2026 com a substituição gradual do ICMS e do ISS por dois tributos sobre valor agregado: o IBS, gerido por estados e municípios, e a CBS, de competência federal. Para o setor de moda, a mudança tem efeito direto no preço final, na previsibilidade de custos e na rotina operacional de confecções, distribuidores e varejistas. O objetivo declarado do novo modelo é simplificar, uniformizar regras e reduzir distorções de cumulatividade que encarecem a cadeia. Na prática, a transição exigirá recalcular margens, revisar contratos e adaptar processos de compliance para capturar créditos ao longo do percurso do fio até a etiqueta.

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Reforma tributária: o impacto no preço das roupas

A migração para um IVA dual costuma redistribuir carga entre elos da cadeia e reduzir litigiosidade na apuração, desde que as empresas tenham integração de dados e documentação sólida. O desenho de alíquotas, regimes específicos e prazos de desoneração transicional ainda pode passar por ajustes regulatórios. Por isso, 2026 se configura como ano de preparação intensiva e de testes com cenários de preço por categoria, canal e praça.

Moda e impostos: impacto ao longo da cadeia

O vestuário agrega valor em etapas sucessivas. Fiação, tecelagem, acabamento, confecção, logística e venda ao consumidor compõem uma sequência em que, no modelo atual, há incidências diferentes e complexas, com regimes estaduais e municipais pouco alinhados. O IBS e a CBS prometem um sistema mais linear, com crédito financeiro amplo sobre insumos, energia, serviços logísticos e despesas necessárias à operação.

Para a indústria têxtil, um ponto sensível é a efetividade do crédito na ponta. Quanto mais transparente e digital a documentação, maior a chance de recuperar o tributo pago a montante e reduzir custo embutido. Para o varejo, a principal mudança recai sobre a formação do preço público com base em alíquotas uniformizadas, menor volatilidade de substituição tributária e menor risco de cumulatividade. Contratos com fornecedores devem trazer cláusulas claras sobre repartição de créditos, prazos de repasse e critérios de reajuste por alterações normativas.

A simplificação não significa ausência de atenção. Categorias com alto giro e variação de mix por coleção tendem a sentir mudanças antes. Já linhas de menor volume e maior valor unitário dependerão de leitura fina de elasticidade de preço, política de remarcação e calendário promocional. O fluxo de caixa também muda quando a recuperação de crédito é mais previsível, o que afeta compras de matéria-prima e estoque de segurança.

3. Simulações: o que muda no preço da roupa

Simulações realizadas por consultorias e departamentos financeiros do setor costumam partir de três perguntas práticas: qual a alíquota efetiva projetada por categoria, qual o índice de aproveitamento de créditos e quanto da variação será absorvida por margem ou repassada ao preço público. Em básicos e jeanswear, onde a sensibilidade a preço é maior, diferenças de poucos pontos percentuais podem determinar a participação de mercado no curto prazo. Em produtos de valor agregado mais alto, a elasticidade depende de marca, storytelling e percepção de qualidade.

redaÉ nesse contexto que exemplos de sortimento ajudam a tangibilizar o impacto. Em redes de grande volume, uma variação de alíquota combinada a melhor aproveitamento de crédito pode alterar o ticket médio de um item popular sem que a etiqueta final suba na mesma proporção. Em planejamentos de coleção, as áreas tributária e comercial simulam cenários de entrada e saída por praça, considerando sazonalidade, mix de tamanhos e canais. Nessas análises, é comum que categorias de base ilustrem o efeito da nova regra sobre o bolso do consumidor. Em muitos casos, uma única variação de parâmetros já muda o posicionamento de preço de itens de grande circulação, como a calça skinny masculina, exigindo ajustes finos em margem, compra e comunicação.

Compliance e margens em xeque

O sucesso da transição depende de governança tributária e tecnologia. ERPs integrados a módulos fiscais, automação de escrituração e conciliação de documentos eletrônicos reduzem risco e aumentam a acurácia do crédito. A rastreabilidade de insumos por lote, especialmente em coleções com diversos SKUs, evita perda de crédito por falha documental. Pequenas e médias confecções, com estrutura mais enxuta, podem recorrer a soluções em nuvem e a BPOs fiscais para suportar picos de fechamento e ajustes regulatórios.

No campo das margens, o planejamento deve considerar três variáveis: custo de produto, despesas fixas e calendário de remarcações. A decisão de repassar integralmente, parcialmente ou absorver a variação depende de competitividade local, canal de venda e sensibilidade do público. E-commerce, lojas próprias e multimarcas podem adotar estratégias diferentes. O omnichannel precisa de tabelas coerentes para não criar assimetrias que canibalizam a própria operação.

Outro ponto crítico é a gestão de crédito acumulado. Empresas com cadeia longa e forte aquisição de insumos podem gerar saldos credores relevantes. Instrumentos de ressarcimento e compensação exigem disciplina documental e monitoramento contínuo. Sem isso, capital de giro fica preso em tributos recuperáveis que demoram a retornar ao caixa.

Reações do setor e próximos passos

Entidades como ABIT, ABVTEX e associações regionais vêm pleiteando calibragens para o setor, com foco em neutralidade concorrencial e simplificação das obrigações acessórias. Entre varejistas e marcas, a tônica é pragmática. CFOs e tributaristas antecipam testes de preço, revisões contratuais e auditorias preventivas de crédito. Do lado industrial, há esforço para digitalizar notas, padronizar cadastros e integrar dados de qualidade, compras e fiscal. Em comum, a percepção de que 2026 será um ano de ajuste fino, com aprendizado contínuo e necessidade de comunicação transparente com o consumidor quando houver mudança de etiqueta.

No horizonte, regulamentações complementares e normas de conformidade podem detalhar regimes específicos, tratamento de devoluções e regras de transição. A coordenação entre estados, municípios e União será determinante para evitar ruídos na aplicação. Programas de capacitação setorial e guias práticos devem ganhar espaço em federações e sindicatos para apoiar negócios de menor porte.

A reforma tributária traz oportunidade de simplificar e dar previsibilidade à cadeia de moda, mas exige preparação técnica e coordenação entre áreas. Quem mapear créditos com rigor, ajustar sistemas, treinar equipes e simular cenários por categoria chegará à nova etapa com vantagem competitiva. A formação de preço em 2026 passa a ser menos um exercício de remendar distorções e mais um processo de gestão integrada de dados, contratos e operação. Para o consumidor, o ganho vem da transparência e da estabilidade. Para as empresas, da eficiência tributária convertida em margem sustentável e em capacidade de investir no produto.

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