Beber água é importante, mas dois litros por dia não é regra

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Por: Diário da Saúde  Data: 04/01/2023 às 09:05
Imagem: Reprodução

O corpo humano é composto por cerca de 60% a 70% de água e, por isso, ela é imprescindível para a manutenção de uma boa saúde.

Desde a troca de CO2 por O2 na respiração até a digestão, a água é essencial.

“Ela transporta nutrientes e oxigênio pela corrente sanguínea, mantém a concentração correta para a manutenção do equilíbrio eletrolítico e ácido-base, regula a temperatura corporal, mantém a estrutura celular, incluindo a membrana celular e a estrutura das proteínas e dos ácidos nucleicos (DNA) e é vital para a excreção de substâncias tóxicas pela urina e fezes. A água é tão crítica para a vida que, se você perder mais que 4% da água corporal total, os sintomas de desidratação irão surgir e, se houver uma perda maior que 15%, ela pode ser fatal,” explica o professor Eduardo Barbosa Coelho, da USP de Ribeirão Preto (SP).

Logo, repor a água que consumimos ou perdemos é essencial. Contudo, a quantidade que deve ser ingerida ainda é um tema controverso mesmo entre médicos e cientistas.

Uma questão pouco conhecida do público é que nosso corpo também fabrica sua própria água.

“Nossas células, no processo de respiração celular, convertem os nutrientes e o oxigênio que chegam pela corrente sanguínea em gás carbônico (CO2) e água. Assim, um adulto de cerca de 70 kg fabrica aproximadamente 700 mL de água por dia. As perdas de água ocorrem de três maneiras: uma parte corresponde à produção de secreções (saliva, suco gástrico e suor, por exemplo), a outra parte é eliminada na respiração e uma última parte está presente na urina e nas fezes,” detalha o professor Eduardo.

Quanta água beber por dia
Como gastamos mais do que perdemos, precisar então repor a água. O estudo mais recente sobre essa reposição, que acaba de ser publicado pela revista Science, reuniu nada menos do que 83 cientistas, liderados por uma equipe do Instituto Nacional de Saúde e Nutrição do Japão.

Segundo a equipe, o volume para consumo diário de água é determinado por diversos fatores, como sexo, idade, aspectos físicos, umidade do ar, temperatura e até mesmo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Assim, não existe uma quantidade ideal de água – nada que justifique a famosa recomendação “Tome dois litros de água por dia” – já que a influência de múltiplos pontos modifica a necessidade de cada indivíduo. 

Assim, os valores publicados nos artigos científicos devem ser vistos sempre como médias. Para um adulto com uma alimentação saudável padrão, cerca de 1 a 1,5 litros de água serão suficientes para manter o balanço hídrico.

Porém, esse valor dependerá do metabolismo individual, da idade, da distribuição de gordura corporal, das condições ambientais, da atividade física e de outros fatores que afetam a perda de água, logo variando de um dia para o outro mesmo para cada indivíduo.

E lembrando que temos um mecanismo de funcionamento automático que nos indica todas as vezes que precisamos de água: A sede. Siga-a e, caso não tenha nenhum problema de saúde, você terá pouco risco.

Também os atletas só devem ingerir líquidos quando tiverem sede. Já os idosos têm a ganhar com o acompanhamento para garantir uma quantidade mínima de água diária.

Quem deve se preocupar com a quantidade de água
Por outro lado, certos grupos de pessoas devem ficar mais atentos à quantidade de água que ingerem:

“Alguns grupos costumam ser encorajados a manter um certo nível de consumo, em geral algo próximo aos famosos dois litros/dia, para aumentar o fluxo urinário. Os exemplos são: indivíduos com infecção urinária ou com tendência a desenvolvê-la: embora não haja evidências conclusivas, firmou-se o conceito, muito razoável, de que um fluxo urinário alto dificulta a fixação de bactérias à via urinária; outro grupo que pode se beneficiar de um consumo mais alto de fluidos é constituído de pessoas com propensão a formar cálculos urinários – as ‘pedras nos rins’.

“Na ausência de tais condições, não há fundamento para o conceito de que o hábito de consumir altas quantidades de água sirva para ‘limpar o organismo’ ou traga qualquer outro benefício,” explicou o professor Roberto Zatz, também da USP. 

O hábito de beber água recorrentemente só se faz necessário, do ponto de vista biológico, quando há a indicação de que o corpo está começando a ficar desidratado, ou seja, quando a sede aparece.

“Habitualmente já ingerimos mais do que o suficiente – quando comemos ou bebemos outros tipos de líquidos -, e se por qualquer motivo deixarmos de fazê-lo, o mecanismo da sede nos obrigará a corrigir eventuais desequilíbrios. A sede é uma espécie de rede de proteção que garante que as perdas de água nunca superem os ganhos, evitando assim que o indivíduo se desidrate,” complementou o Dr. Roberto.

Overdose de água
Mas há também o extremo oposto: Embora muito raro, um excesso de consumo de água pode vir a ser perigoso. É a chamada “intoxicação por água”.

“Os rins têm uma grande capacidade de eliminar excessos de água, o que permite uma ingestão máxima superior a 15 litros por dia. Isso significa que, em geral, beber mais líquidos do que o necessário não causa grandes problemas. Afinal, dificilmente alguém deseja ou consegue beber 15 litros de água – equivalentes a 60 copos ou um copo a cada 15 minutos em um só dia.

“No entanto, existem algumas situações de intoxicação hídrica, uma espécie de ‘overdose de água’. Essa condição pode resultar de um consumo superior a 15 litros por dia ou de uma ingestão tão rápida, por exemplo, cinco litros em meia hora, que não há tempo para que os rins eliminem o excesso. Um acúmulo excessivo de água no organismo causa diluição de solutos e, em consequência, edema (inchaço) cerebral e um quadro neurológico grave que pode ter desfecho fatal,” explicou o Dr. Roberto.

Também existem grupos de risco para a overdose de água, como alguns cânceres, que produzem anormalmente um hormônio que dificulta a excreção de água pelos rins, sendo a intoxicação hídrica uma das prováveis primeiras manifestações da doença. A doença renal crônica, conhecida também como insuficiência renal crônica, é uma condição em que ocorre a perda lenta dos rins, seja por hipertensão, diabetes ou processos inflamatórios na maioria dos casos. Em fases avançadas, a capacidade de eliminar excessos de água é comprometida.